quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Menino - homem

Amigo desce mais uma branca
Deixa que a cana
Desça por minha garganta
Que há tempos não sabe o que é gritar
Deixe que o gosto amargo
Me alimente um desencargo
Que há tempos minha alma não sabe o que é voar
Deixe que quando chegar ao meu estômago
Ele acabe com o desgosto
Pois há tempos não sabe o que é gostar
Deixe que eu me farte
Dessa bebida que muito arde
Pois há tempos não sei o que é estar inteiro
Deixe que eu fale um pouco mais alto
Que eu mexa com todos os convidados
Pois há tempos não sei o que é ser bem vindo
Deixe que eu me sente no chão
Que ponha a cabeça em minhas mãos
Que há tempos não sei o que é atenção
E se eu chorar, não seque minhas lágrimas
Deixe que escorram pela calçada
Pois há tempos não sei o que é lavar a alma
Deixe por fim que eu me deite num cantinho
Pois a essa hora já sou de novo, menino
Esperando que o mundo não me engula
E ao fechar meus olhos para noite
Que os sonhos me tragam a sorte
Que acordado não encontrei.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Cada noite e
cada dia
os ares podem mudar
os pássaros podem cantar
porque o destino
não é uma caixinha
o futuro é um oceano
você vai mergulhar?
vai por os pés?
vai sorrir debaixo d'agua?
A vida começa no momento
que se descobre
que tudo não passa de causas
que cabe a nós a direção da estrada.

sábado, 24 de novembro de 2012

Nove

Era novembro, como hoje. Éramos chuva, hoje não somos. Hoje a chuva não atravessa nossa janela e nos envolve mais. Hoje a música não é sentida da mesma maneira. E eu lembro " when i look into your eyes...", lembro da chuva de novembro. Lembro de olhar lá fora, lembro de lhe olhar. Lembro de sermos um, lembro de ser vivo, ser seu. Se foram nove primaveras. A canção não havia tocado novamente em minha vida. Mas hoje, em meu quarto desarrumado, numa cidade grande, entre muitos desconhecidos, ouvi a música. Ela me trouxe uma alegria instantânea, me fez te sentir por nove minutos, senti seu cheiro, senti a coberta nos aquecendo, senti a vela que iluminava. Mas ao fim dela percebi o nosso fim. Toda música acaba, toda primavera acaba, todo novembro acaba. A chuva vai e volta, você foi e não voltou.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Aqueles cachos

Quando ele se foi naquela noite fria de junho, eu encolhida entre cobertas e soluços vi a porta se fechar. A última vez que vi sua sombra de onde eu estava. Ao sair ele apenas olhou, não sei ao certo se foi para mim ou para os móveis. Eu engoli minha saliva a seco que até pareceu doce em contrapartida da vida agora amarga. Liguei a TV na busca frustrada de algo para me distrair, por fim encontrei um canal onde uma mulher loira e magra me dizia coisas sobre o amor. Eu sabia o que era o amor. Sabia que ele podia me fazer sorrir como se tivesse 7 anos e me fazer chorar como se minha mãe tivesse morrido. Eu sabia que ele me deixava sem  dormir, que me roubava os sonhos, que me deixava como um zumbi. E eu que me apeguei à aquele moço da loja de discos, só porque  ele tinha cachos e barba por fazer. Só porque ele tinha covinhas ao sorrir e cheiro de homem. Só porque quando eu chegava à loja ele me sussurrava: olá moça do Paul! . Embora Paul Mcartney me fizesse suspirar, era o moço da loja de discos que eu queria que cantasse "Something" em meu ouvido. Então ele me cantou, me beijou, me sussurrou, me pegou, me dançou, me virou do avesso e por fim me deixou. Me deixou ainda do avesso, ainda pela metade, me deixou o Abbey Road, mas levou o violão, o cacho e o abraço.

domingo, 1 de julho de 2012

Platão me entende

A unica coisa que eu penso é ele mexe comigo, mexe, mexe. E me lembra uma certa musica um tanto quanto brega. Então descubro que eu me tornei uma brega também. Descubro que minhas bochechas ardem se o vejo, e meu sorriso aparece mesmo sem eu permitir. Descubro também que quando ouço o nome dele, algo em mim se espanta, algo em mim se exalta, algo em mim se fascina. Descubro ainda que o busco aonde quer que eu vá, seja no zoologico ou no cinema, seja no caminho de casa, seja nas estrelas. E pior, descubro que o encontro em tudo, encontro-o no vestido azul, encontro-o na arvore de natal, encontro-o na musica gritada, encontro-o nos cabelos de outrem, e principalmente encontro-o na minha pele, nos meus ouvidos, nas minhas palavras. O pior não é estar brega ou espantada ou buscando ou encontrando, o pior é não achar. Não encarar face-a-face. Tete-a-tete. Não olhar nos olhos. O pior é ficar à deriva. O pior é dar razão à Platão.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Canção de desamor

Hoje quando eu acordei
e você não estava, como antes,
talvez te perdoaria
talvez te esperaria
Mas hoje é diferente
não é ano novo ou data importante
Mas é o dia em que te deixo para trás
o dia que eu digo não quero mais
a esperança e a dança vão mudar de lugar
Eu vou encontrar outro para me fazer acreditar
outro que não me diga talvez
ou posso ficar a deriva
entre tantos e perdida
mas certa de uma coisa nessa vida
- Hoje eu quero paz.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O céu ainda estava claro, o dia acabara de nascer e com ele vinha a luta diária. Eunice Aparecida dos Santos; brasileira; casada; três filhos casados; casa alugada; renda mensal abaixo da renda nacional; prato preferido: arroz, feijão, bife caprichado e farofa; bebida favorita a boa e velha cervejinha de domingo, dia da semana favorito: domingo. Pois aos domingos o horario não existe, embora o galo não a deixe dormir. Aos domingos o seu homem está presente. Aos domingos a comida pode ser saboreada lentamente. Aos domingos pode-se sonhar depois do almoço. Aos domingos usufrui-se do beneficio de ter uma tv para entreter, dar risadas, saber como é a vida de pessoas que nunca conhecerá. Mas os domingos acabam e abrem espaço para segunda-feira. Mas ela não foge da batalha, não senhor, porque ninguém luta por ela.
O céu estava claro, o dia acabara de nascer e com ele vinha a luta diária. Era segunda e mesmo antes do galo cantar ela já estava de pé, antes do marido acordar já preparara o café, antes dele sair ela ja estava em seu local de trabalho, sem endereço, sem carteira, sem identidade, buscando sustento, alento. Quando a repórter pergunta seu nome:
-Eunice Aparecida dos Santos.
- Dona Eunice...
Ela apenas resmunga: não sou dona de nada não senhora.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Sonhadora Sônia

- Você sabe... sabe aquele homem que você sonhou a vida inteira? Sabe daquele jeitinho?
Disse-nos ela com os olhos encantados, as íris iluminadas através dos aros do óculos, mãos inquietas puxavam e soltavam um elástico enquanto ela puxava e soltava-o de sua memória. Então viramos suas cúmplices. Aquele sorriso radiante, as expressões abertas, a alama liberta. Só havia um problema no paraíso e se chamava mundo real.
- A nossa diferença é de 20 anos, ele podia ser meu filho. Mas não era, foi o que ele me disse - ela sorriu num misto de orgulho e vergonha.
Ela havia passado 59 primaveras, muitas dessas frias como o insuportável inverno, outras tantas escandalosamente radiantes como o verão, e por fim os recomeços dos outonos. Ele poderia ser seu filho, mas não era; poderia ser um estranho qualquer da face da Terra, poderia ser o cara da padaria, o ator da novela das seis, o pastor da igrejinha da rua de baixo e por fim, poderia ser seu namorado, mas também não era. Para ela, ele se resumia entre sonho, esperança e uma pitada de alegria nos seus dias, uma alegria para ser guardada na gaveta.
- Mas não é só a idade, ele é casado.
Era o que lhe restava, falar com estranhas como nós, sobre seu amor platônico. Não podia gritar, não podia olhá-lo com vontade, nem sequer estender-lhe a mão. Coisas pequeninas em qualquer relação e compartilhada por eles por outros sentidos. Trocados pela respiração, pelo riso da piada, pelo cumprimento entregador.
- Mas os homens, podem sim amar de verdade mais de uma mulher, mas a mulher não, ela ama intensamente cada um dos homens de sua vida.
Até onde eu sei, esse ciclo está rolando. Ele amando as duas, ela amando somente a ele. Ele a olha, ela sente como se a tivesse beijado loucamente. Ela ri de algum comentário, escandalosamente diga-se de passagem como se disesse: eu quero estar com você. Por fim, eles se despedem, aperto de mão, mãos macias, carinhosas, energia passada entre poros. E esses cinco segundos em que se tocam, valem pela espera da noite inteira, afinal ela diz que cinco é seu número de sorte.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ontem de manhã quando acordei



Olhei a vida e me espantei

Eu tenho mais de 20 anos
E eu tenho mais de mil perguntas sem respostas

Estou ligada num futuro blue

[...]

Essa calma que inventei, bem sei

Custou as contas que contei

Eu tenho mais de 20 anos
E eu quero as cores e os colirios

Meus delirios

Estou ligada num futuro blue




20 anos blues,

Sueli Costa / Vitor Martins e interpretado lindamente pela querida "Pimentinha"

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Entre cartas

Para Pedro Martins,

São 3 da manhã. 5 de agosto. Não, 6 tecnicamente né. Você sabe que eu nunca fui boa em datas. Ou cartas, aparentemente. Mas descobri várias coisas em que sou boa. Sou boa em sentir sua falta a cada vez em que chego em casa, minha casa agora, alias. Sou boa em chorar em filmes àgua-com-açúcar que passam na tv. Sou boa em jantar miojo, pipoca de microondas ou cereal, porque não é muito legal cozinhar para um só. Sou boa em dormir abraçada com um travesseiro, pois desacostumei a dormir sozinha. Começos são difíceis não é? Trabalhosos, duros... Estou me moldando, me reerguendo, estou cheia de feridas mas elas vão cicatrizar, vai ser difícil passar por todas as fases, novos hábitos, desapego dos antigos... por isso eu lhe peço, não apareça, não mande sinais, não olhe para mim até eu estar inteira de novo.

Agradecida,
Luísa Torres Martins, ex-Martins




Luísa,

Não te procurarei como pediu. Não darei sinais. Não te olharei. Mas você estará comigo nos meus sonhos, nas minhas tardes de domingo, na rede vazia, na piada da tv que entendíamos. No violão que agora chora. Na escova de dentes que não está mais ao lado da sua. Eu também estou pela metade, eu também me moldarei. Eu gostaria de gritar até irritar os vizinhos que sim, você é a minha Luísa, a Luísa de Pedro, assim como Marilia é de Dirceu. Mas como você me pediu, não lhe procurarei, não receberá essa carta, então guardo na gaveta junto de tantas outras que não enviarei.

Pedro de Luísa

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sobre ir

E deixar é a pior parte, sair da zona de conforto. Não ver mais aquele buraquinho na parede que tanto te incomodava tempos antes. Acordar e não ver o céu sob o mesmo ângulo. E as ruas que tanto te levaram agora estão há quilômetros de distancia. O ar não é o mesmo, as arvores tem outra cor, mas de alguma forma isso continua sendo seu caminho, tortuoso, estranho e singular caminho. Estrada que muda, se renova e se adequa. Estrada que vai, volta e leva. Estrada que apesar dos pesares, por fim, liberta.